Browse By

A MORTE DO PRESIDENTE

 

Pegou-me pelo braço, no momento em que me chamavam e, baixinho sussurrou-me repetidamente: – Está morto! Diga a eles que está morto! – Finalizou aumentando o tom da voz.
Preocupado, pensei: – O que vou dizer? Não vai ser fácil. Tinham-me incumbido à tarefa de comunicar aos familiares a sua morte. E agora? Encontrava-me a cata de palavras que, melhor transmitisse a notícia, sem chocar a angustiada família.

Na mesa metálica, fria, estreita, do necrotério; jazia imóvel, inerte, sozinho, envolto num lençol branco tinto de sangue. No peito o furo, redondo, pequeno, do projétil, que lhe destruiu o coração e o vidro de antiácido, ceifando-lhe a vida. Atestado do brutal assassinato.

Lá fora os amigos e parentes, cientes da tragédia, aguardavam com um fio de esperança, resplandecendo nas faces, o milagre da sobrevivência que…, não houve.

– O que devo dizer??? Não sei!!! – Perguntava e respondia a mim mesmo a todo instante. – Que rabo de foguete segurei! – Exclamei amargurado.

Apesar dos esforços, nenhuma idéia luminosa àquela hora surgira. Lá fora, eles esperavam. Sentia-me como um mágico tendo de tirar o coelho da cartola e, naquele momento o mesmo tinha saído pra comer cenoura. Parecia que, uma borracha mental, naquele instante tinha sido passada, apagando as palavras quando mais delas precisava.

– Era um bom homem. – Comentava com tristeza um velho colega de escola, numa roda de parentes e amigos mais chegados.

– Sempre disse a ele que o seu mau gênio um dia o deixaria mal, vejam o que aconteceu.

– O samba melhorou muito depois que assumiu a direção da escola, mas, era muito estourado. Até que no ano passado teve de ser internado por causa de uma úlcera.

A mãe, esposa, e os três filhos (o pai falecido há seis meses, e o único irmão vivo residente no Maranhão, não tinha ainda sido avisado) presentes, souberam da notícia através das manchetes dos jornais. “TIRO NO CORAÇÃO DO SAMBISTA”; “BALEADO PELO DESAFETO”; “SUBIU COM O SAMBA E CAIU COM UM TIRO” apregoavam nas ruas os jornaleiros, o grande furo.

Às cinco e meia do fatídico anoitecer de verão, chegara entre a vida e a morte.  O último sopro de vida abandonara-o durante a transfusão, sem esperar. Como se a morte temesse perdê-lo.

Os jornais vendiam aos montes, todos ansiavam por saber o que acontecera. Tornara-se muito popular depois da conquista do bicampeonato pela sua escola. Triste sorte tivera por defender uma causa justa, perdida, do povo do samba, do morro. Era assim, contavam, religioso, humano, um idealista, chegando a ser fanático. Na mocidade brigara com a polícia, dava tapa em marginal. Ninguém falava mal da escola, não admitia.

– Não pode ver ninguém em dificuldade – fala com gratidão o mestre-sala -, sem dar a mão. 

– É isso mesmo. Uma boa alma. – Complementa um passista.

– Ficará logo bom. A ciência tem muito recurso atualmente, estão até trocando coração.

A conversa enaltecendo os valores e feitos do sambista, no saguão, continuava. A cada minuto, mais gente chegava, curiosa. Ainda não sabiam da morte do seu líder. A falta de notícias os impacientavam, gerando tumulto.

Bruscamente, abre-se uma porta atrás de mim. Uma voz áspera, interroga-me. Viro-me, encarando-o nos olhos. Era o médico assistente que me tinha encarregado de tão penosa missão.

– Você! Ainda aí?

– Não me atrevo a dar a notícia. Ele era benquisto, todos esperam sua volta, que não acontecerá.

Um breve silêncio fez-se. O seu ar pensativo deu a perceber que como eu, encontrava-se em dificuldade em comunicar a terrível consumação da tragédia. Talvez, por isso, me encarregara de tal missão. Sabíamos que não aceitariam sua morte, era adorado por todos. A cada instante a concentração popular aumentava, ficando o saguão atulhado, de uma multidão revoltada, inconformada com o atentado.

Encho o peito de ar. Buscando coragem. Decidido, caminho até a porta, disposto a dar a notícia. Uma multidão ameaçadora, rodeia-me. De um só fôlego, com voz firme, grito para todos ouvirem:

– O PRESIDENTE MORREU.

Um zunzunzum de choro e lamento, toma conta do ambiente.
Momentos depois, o saguão fica vazio, todos se retiram para chorar a morte do dirigente.
Este ano a escola não vai desfilar, o luto tomara conta dos lares humildes. Apenas ouvia-se ao longe, um surdo solitário, no lamento do morro, entoando o seu toque fúnebre, anunciando que ele partira.

NOTA: Este conto, contendo termos da época, foi escrito em 1975 em horário de folga no meu consultório médico, Rio de Janeiro. Retrata uma faceta do cotidiano da equipe médica do Pronto Socorro, Hospital Estadual Getúlio Vargas, Penha Circular/RJ, onde fui acadêmico de medicina bolsista da SUSEME (Superintendência de Serviços Médicos) – Secretaria de Saúde do Estado da Guanabara -, 1970 e 1971.

(*) Médico e Diretor Executivo do Sistema Raiz da Vida www.raizdavida.com.br

Autor:Dr. Edvaldo Tavares 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *